Não gosta de vedetismos e dispensa empregada em casa.Cifrão, como é conhecido, conta que aprendeu a dançar aos 16 anos e apaixonou-se pelas professoras. Aos 20 saiu de casa, depois de uma estadia difícil e muito solitária em Londres, e aos 23 aprendeu que a família e os amigos são o mais importante da vida.
- Cifrão, nome pelo qual é conhecido, vem de onde?
- Foi uma alcunha que os meus colegas me puseram quando eu tinha 12 anos e fui acampar. Nunca tinha saído de casa. Eles levaram todos cinco contos [25 euros] e os meus pais deram-me 40 contos [200 euros], com medo de que me faltasse alguma coisa. Pela piada, eles começaram a chamar-me ‘puto cifrão’. Eu era o mais novo do grupo.
- O Vítor saiu de casa dos pais com que idade?
- Com 20 anos. Fui para Londres durante um ano e quando voltei assumi uma casa sozinho.
- Já ganhava dinheiro?
- Já. Eu trabalho desde os 13 anos. Quando era pequenino queria ser gestor de empresas e só aos 16 anos é que comecei a ter contacto com as artes. Com a dança primeiro, aos 18 comecei com a representação e aos 20 com a música. E só a partir daí é que comecei a virar a minha carreira para as artes. Estava na faculdade, no ISEG, fiz três anos e parei.
- Isso foi um grande passo, da gestão para as artes.
- Eu comecei a dançar aos 16 anos por uma parvoíce, ia para a discoteca e não sabia dançar. Então fui aprender e vi que tinha algum jeito. Depois integrei o grupo Hexa, que era só de rapazes, éramos seis, fomos ao Campeonato do Mundo de Dança e ganhámos. Fizemos espectáculos que tinham uma componente teatral muito forte, e eu decidi aprender a representar.
- Não teve pudor em se inscrever nas aulas de dança?
- Não, isso acontece mais no ballet. Eu fui aprender hip-hop, gostava de Michael Jackson. Mas sentia-me um bocadinho ridículo. Eu era jogador da bola e as primeiras aulas fiz com ténis de futebol e meias altas, ridículo.
- E depois? Gostou tanto que fez disso profissão?
- Primeiro vi que tinha jeito e depois apaixonei-me pela professora. E isso ajudou muito. Mas, infelizmente, eu era muito novinho e essa professora não se apaixonou por mim. Depois tive uma segunda professora, e essa já se apaixonou por mim, o que também levou a que praticasse mais vezes.
- É dado a paixões fáceis?
- Por acaso, não. Sempre fui de relações muito estáveis e longas, inclusive essa. Apaixonar pela professora…
- … é um cliché. Já ser correspondido…
- E ainda estive com ela um bocado. Nunca fui um rapaz de ‘curtes’ de uma noite.
- Chegaram a viver juntos?
- Sim. Eu tinha 18 anos.
- O Vítor nunca viveu sozinho?
- Só em Londres.
- E não sente falta de estar sozinho?
- Eu tenho o meu espaço e gosto de compartilhá-lo com outras pessoas. Senão, não tinha relações fixas e estáveis.
- Com a sua vida agitada, ter uma companheira ajuda a relaxar?
- Claro. A minha vida é tudo menos monótona. E essa estabilidade de casa é muito boa.
- Tem quatro irmãos. A mais nova tem dez anos. Ela fala-lhe dos ‘Morangos com Açúcar’?
- Ela é espectadora. E pergunta-me o que vai acontecer. Quero acreditar que é minha fã.
- E as amigas dela pedem-lhe autógrafos?
- Nem por isso. Nós somos muito terra-a terra. A nossa família é assim, é muito concentrada. Ninguém se perde…
- Não se deixam deslumbrar?
- Não. A única pessoa que está no mundo mediático sou eu, mas eles não usam isso para ganhar privilégios.
- Como é que surgiu o convite para os ‘Morangos’?
- Estive em Londres um ano e quando voltei estive a trabalhar numa empresa onde fazia espectáculos de dança e uma agente ligou-me para fazer um casting para os ‘Morangos’. Pediram-me para cantar, dançar e representar, e eu fiz isso e dois dias antes de começarem as filmagens ligaram-me para ir a um ensaio.
- Fez duas temporadas, saiu e regressou quando já era conhecido. Estava nos D’ZRT, tinha participado na ‘Doce Fugitiva’… A produção, ao chamá-lo, terá pensado em tirar partido da sua fama?
- Não vejo as coisas assim. Eu saí de lá com um trabalho bem executado e acho que fazia sentido o ‘Zé Milho’ aparecer de novo. Claro que há miúdos, de 18/20 anos, que acham piada ser eu a dar-lhes formação. Porque dou-lhes formação na ficção e na realidade, sou formador dos actores.
- Nunca ninguém o criticou? A sua imagem, as argolas…
- Umas senhoras disseram que devia baixar a crista mas foi uma coisa pontual.
- Mas revê-se na sua imagem?
- Sim. Fui eu que trouxe a crista para os ‘Morangos’.
- O Vítor gosta de crianças. Influenciou-o ter irmãos mais novos?
- Não. Gosto porque, de facto, as crianças são a melhor coisa do Mundo, os seres mais puros. Fascina-me muito o facto de as crianças dizerem na cara aquilo que sentem.
- E é verdade que nunca conheceu ninguém de quem não gostasse?
- Nunca apanho pessoas más, e se as apanho nunca lhes dou confiança para elas serem más para mim. Sei que toda a gente tem um lado mau, mais ou menos desenvolvido. Mas acredito na bondade das pessoas e não tenho por hábito defender-me. Também não me dou à matança porque sou muito reservado, apesar de não me importar de sofrer, faz parte da vida. Por isso, não sou uma pessoa que olhe para os outros de lado.
- Gosta de ler?
- Gosto, e leio de tudo. Mas gosto mais de histórias reais, que me passem alguma experiência. Um dos livros de que eu mais gostei foi ‘O Perfume’. Eu tenho um desvio nasal e tenho muitas alergias, e durante uma grande parte da minha vida sentia muito pouco os cheiros e os sabores. E o livro descreve muito bem os cheiros…
- … e a falta deles.
- E a falta deles. E havia coisas que nunca tinha sentido e que consegui percebê-las através do livro. Há uns anos li ‘A Profecia Celestina’, que fala sobre a energia das pessoas, a cor das energias. Achei muito interessante. Se é má, a sua energia é mais fechada, se é boazinha a sua energia está mais aberta.
- O Vítor é introvertido?
- Muito.
- E tímido?
- Também, mas já fui mais. As artes libertaram-me um bocado.
- Acaba de lançar um álbum a solo, ‘Amor Vilão’. Nas letras nota-se uma grande solidão.
- Há fases na minha vida que passei muito sozinho, por opção. E foi engraçado, porque até uma determinada altura pensava que não precisava de ninguém.
- Isso foi quando?
- Até aos 23 anos.
- E mudou porquê?
- Por causa da solidão. Foi a estadia em Londres. Fui para lá estudar e trabalhar, e foi complicado porque estava longe da família e dos amigos e percebi que o que faz sentido na vida são a família e os amigos.
- Namora com a Noua [Wong, actriz e manequim]?
- Sim, há cinco anos.
- Conheceram-se nos ‘Morangos’?
- Não. Conhecemo-nos quando ela tinha 15 anos, na dança. Via-a como uma miúda. E só pouco tempo antes de começarmos a namorar é que me apercebi de que ela era uma mulher.
- Vivem juntos há quanto tempo?
- Quase desde que começámos a namorar. Eu já tinha casa e ela também já trabalhava.
- Faz a lida da casa?
- Muito frequentemente pode encontrar-me no supermercado. Não temos empregada. Fazemos tudo. Eu não gosto mas não me importo. Não pode haver vedetismos.
- E filhos? Falam disso?
- Ainda não senti o chamamento. Nem eu, nem ela.
- E casar?
- O casamento é uma instituição. Nenhum de nós é católico.
- Mas foi educado na religião católica?
- Fui, e tenho a comunhão solene. Mas foi por curiosidade. Sempre fui muito curioso.
- E a curiosidade deve-se a querer saber ou a querer escolher?
- Saber. A minha escolha está feita. Sou uma pessoa que acredita em alguma coisa, em alguém que gere as coisas, mas não numa figura, num nome, numa instituição. Acredito que há lá em cima alguém a fazer contas, que nos dá uma prenda quando somos bons. Acredito nas energias. Acredito que, quando vivemos uma coisa muito má, mais à frente vamos viver uma coisa boa, e vice-versa. Acredito nesse equilíbrio do Universo. Acredito que há sempre o bom e o mau.
- Tem interesse pelo lado espiritual?
- Não é interesse, é uma filosofia de vida. Quem molda a nossa vida são a família e os amigos, e nós vamos optando…
- São os ‘sins’ e os ‘nãos’ que ouvimos que moldam o nosso caminho?
- Exactamente. Acredito na força que as pessoas têm.
- E já sentiu a crise?
- Não. Tenho tido muita estabilidade. Estava a gravar a novela e chamaram-me para fazer ‘Uma Canção para Ti’. Mas trago uma bagagem diferente. Eu não sou só uma coisa, eu danço, toco, coreografo, represento… Consigo diversificar o meu ganha-pão. O incrível é que tenho conseguido fazer sempre as três.
INTIMIDADES
- Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?
- Gostava de convidar várias pessoas mas tenho uma admiração por um músico português, David Fonseca. Já consegui falar com ele uma ou duas vezes por telefone mas nunca numa conversa normal, tranquila. Admiro muito o trabalho dele e acho que deve ser uma pessoa muito rica.
- Não consigo resistir a…
- Mexer o pé quando ouço música.
- Se pudesse, o que mudava em si, no corpo e no feitio?
- Seria menos teimoso. No corpo, nada. Não quer dizer que ache que sou perfeito, acho é que temos de lidar com as coisas e que cada um de nós tem partes muito bonitas e partes que fazem a nossa personalidade.
- Sinto-me melhor quando…
- As coisas resultam.
- O que não suporta no sexo oposto?
- A teimosia.
- Qual é o seu pequeno crime diário?
- Sou tão bonzinho mas durmo muito pouco. Deito-me muito tarde e levanto-me cedo. Durmo três a quatro horas por noite.
- O que seria capaz de fazer por amor?
- Tudo.
- Complete. A minha vida é…
- Uma montanha-russa.
PERFIL
Vítor Fonseca, conhecido por ‘Cifrão’, nasceu a 27 de Maio de 1979, em Lisboa. Frequentou o Conservatório e participou no projecto Hexa, que lhe deu fama como bailarino. Aprendeu música e integrou os D’ZRT, depois de já se ter estreado na televisão como o ‘Zé Milho’ nos ‘Morangos com Açúcar’ (TVI). Participou na novela ‘Doce Fugitiva’e nos concursos ‘Dança Comigo’ e ‘Uma Canção para Ti’.